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E se o envolvimento com a ciência começar pelo sentimento de pertença?

há 16 horas
6 min de leitura

Criar pontes entre as pessoas e a ciência através do Modelo de Envolvimento Relacional



O que faz alguém sentir que a ciência é “para mim”? Ter acesso a mais informação? Conhecer uma pessoa cientista? Receber um convite para participar numa experiência?


Ou talvez comece em algo mais profundo: reconhecermo-nos na pessoa, no lugar ou na história através dos quais a ciência chega até nós.


Na Native Scientists, passámos anos a criar oportunidades para que crianças e cientistas se encontrem. Através de programas como o Cientista Regressa à Escola e o Mesma Comunidade Migrante, temos visto como um encontro aparentemente simples pode mudar a forma como uma criança vê a ciência e se vê a si própria em relação a ela.


Agora, transpusemos algumas destas ideias para um enquadramento científico. O nosso mais recente artigo revisto por pares, When People See Themselves in Science: A New Relational Model of Science Engagement, publicado na revista Science Communication em julho de 2026, apresenta o Modelo de Envolvimento Relacional . Trata-se de uma abordagem ao envolvimento com a ciência que coloca a relação, o sentimento de pertença e as origens partilhadas no centro da interação.



Mais do que partilhar conhecimento

A comunicação de ciência evoluiu consideravelmente ao longo dos anos. Tradicionalmente, o Modelo de Défice descrevia a comunicação de ciência sobretudo como um processo unidirecional: quem é especialista tem o conhecimento, o público não o tem, e o papel da comunicação é colmatar essa lacuna.


Abordagens mais recentes evoluíram no sentido do diálogo e da participação. Reconhecem que o público traz o seu próprio conhecimento, as suas experiências e as suas perspetivas para as interações com a ciência.


Estas mudanças são importantes. Mas defendemos que há ainda outra pergunta que vale a pena fazer:


O que leva, afinal, as pessoas a quererem aproximar-se da ciência?


O nosso artigo propõe que o envolvimento pode tornar-se mais significativo quando as pessoas encontram algo de si próprias na pessoa, no contexto ou na experiência através dos quais contactam com a ciência.


Uma criança de uma comunidade rural que conhece uma pessoa cientista que cresceu na mesma terra pode ver possibilidades que antes pareciam distantes. Uma criança de origem migrante que conhece uma pessoa cientista que fala a sua língua de herança pode sentir que a sua língua e a sua identidade têm lugar na ciência.


Nestes momentos, a interação não se resume a transmitir conhecimento, nem sequer a participar numa atividade. Trata-se de reconhecimento. A mensagem passa a ser: pessoas como eu também podem pertencer aqui.



Da proximidade ao envolvimento

O Modelo de Envolvimento Relacional parte da ideia de que o envolvimento com a ciência pode ser reforçado por um terreno cultural, emocional e social partilhado.


A ideia não é que cientistas e público tenham de ser iguais. Mas pontos de contacto significativos podem ajudar a criar as condições para a confiança, a curiosidade e o sentimento de pertença.


A ideia central do modelo é que o envolvimento não se limita ao que acontece durante o encontro entre participantes. Quando as crianças conhecem cientistas com quem se identificam, podem começar a imaginar-se de outra forma. A ciência pode tornar-se menos abstrata, menos distante e menos associada a um tipo estereotipado de pessoa.


A relação pode também ser recíproca. As pessoas cientistas não estão simplesmente a “entregar” ciência às crianças. Estão a aprender com as comunidades com que interagem e às quais, de alguma forma, pertencem. Estão também a desenvolver novas competências de comunicação e a olhar para o seu próprio trabalho a partir de diferentes perspetivas.


Isto abre a possibilidade de um ciclo: a proximidade pode gerar envolvimento, o envolvimento pode gerar inspiração e a inspiração pode criar novas pontes.



O que tem a circularidade a ver com a comunicação de ciência?

O modelo nasceu de outra ideia central no nosso trabalho: a Educação Circular.


Inspirada nos princípios da economia circular, a Educação Circular propõe que nos afastemos de abordagens lineares, em que o conhecimento é criado, transmitido e depois deixado para trás. Em vez disso, os recursos, as experiências e o conhecimento podem ser continuamente reutilizados, adaptados e relacionados com novos contextos.


  • Na comunicação de ciência, isto significa fazer perguntas diferentes:

  • Que conhecimento já tem quem aprende?

  • Como podem as suas experiências fazer parte do processo de aprendizagem?

  • Como pode o que acontece durante uma atividade de envolvimento influenciar o que vem a seguir?

  • E como podem as relações criadas através do envolvimento com a ciência perdurar para além de uma única interação?


Esta perspetiva muda a forma como concebemos as intervenções de envolvimento com a ciência. Em vez de vermos uma atividade de divulgação como uma transmissão pontual de conhecimento, podemos encará-la como um momento num ciclo de aprendizagem mais longo.



Aprender com os programas da Native Scientists

O Modelo de Envolvimento Relacional assenta na prática. O programa Cientista Regressa à Escola, da Native Scientists, cria pontes entre crianças e cientistas que cresceram nas suas próprias comunidades. As pessoas cientistas regressam às escolas que frequentaram e partilham o seu percurso até à ciência.


Para uma criança, conhecer alguém que já se sentou na mesma sala de aula pode tornar uma carreira científica mais fácil de imaginar. A pessoa cientista deixa de ser uma figura abstrata saída de um manual escolar ou de um ecrã de televisão. Passa a ser alguém com uma história, um lugar e experiências com que as crianças se podem identificar.


O programa Mesma Comunidade Migrante aplica um princípio semelhante através da língua de herança e da identidade cultural. As crianças conhecem cientistas que partilham a sua língua de herança e, muitas vezes, aspetos da sua experiência de migração ou da experiência dos seus pais. Aqui, a língua torna-se mais do que uma ferramenta de comunicação. Torna-se uma ponte entre identidade, comunidade e ciência.


Estes programas mostram como as abordagens relacionais podem pôr em causa a ideia de que a ciência pertence a outras pessoas. Em vez disso, a ciência torna-se algo em que as crianças se conseguem reconhecer.



Dos encontros individuais à mudança sistémica

Uma única interação pode parecer pequena. Uma pessoa cientista entra numa sala de aula. As crianças fazem perguntas. Realiza-se uma experiência. Alguém descobre algo novo.


Mas estes momentos podem ter efeitos que vão além da sala de aula.


Uma criança pode ficar mais curiosa em relação à ciência. Um professor ou uma professora pode descobrir uma nova forma de abordar um tema. Uma pessoa cientista pode ganhar confiança para comunicar a sua investigação. Uma comunidade pode ver-se representada em espaços onde historicamente esteve ausente.


Com o tempo, estas pontes podem acumular-se. É por isso que acreditamos que o envolvimento com a ciência deve perguntar: As pessoas veem-se na ciência? Sentem que pertencem? Conseguem relacionar o conhecimento científico com as suas próprias experiências, identidades e comunidades?


Estas perguntas são particularmente importantes quando trabalhamos para uma maior equidade. Dar a mesma oportunidade a todas as pessoas não significa necessariamente que todas a vivam da mesma forma.


Por vezes, criar um envolvimento mais equitativo implica conceber experiências que reconheçam de onde as pessoas vêm e usar essas experiências como ponto de partida para criar pontes com a ciência.



Um caminho diferente

As abordagens de défice, de diálogo e participativas trouxeram, cada uma, contributos importantes para a área. Com o Modelo de Envolvimento Relacional, propomos o envolvimento relacional como uma lente adicional para pensar a forma como se criam e mantêm relações significativas com a ciência.


Para a Native Scientists, esta investigação representa um passo importante naquilo que temos vindo a explorar na prática há anos. Os nossos programas nasceram de uma convicção simples: todas as crianças devem ter a oportunidade de conhecer uma pessoa cientista.


A nossa investigação está a ajudar-nos a mostrar que a forma como a interação é concebida importa tanto quanto a ciência que se comunica.


Porque, por vezes, o envolvimento com a ciência mais transformador não começa com um facto científico. Começa com o reconhecimento. Com uma língua familiar. Um lugar partilhado. Uma história semelhante. Um sentimento de pertença.


E talvez com a perceção de que “a ciência é para pessoas como eu”.



Lê o artigo completo: When People See Themselves in Science: A New Relational Model of Science Engagement, de Joana M. Bordalo, Matilde Gonçalves e Joana A. Moscoso, publicado na revista Science Communication (2026).

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