Se eu fosse cientista…
Celebrar 12 anos de Prémios Native
“Se eu fosse cientista, criava uma máquina do tempo com muita comida. Voltava a épocas em que havia guerra e distribuía comida.” Foi esta a resposta da Linda, de 9 anos, quando lhe pediram para completar a frase “Se eu fosse cientista…”.
Todos os anos, os Prémios Native, um concurso interescolar, reúnem as perceções e as expectativas de milhares de crianças sobre a ciência e as pessoas cientistas. O concurso tem duas categorias: a Melhor Frase do Ano (“completa a frase: se eu fosse cientista…”) e o Melhor Desenho do Ano (“faz um desenho que mostre o que sabes sobre as pessoas cientistas e o seu trabalho”). Em ambas, as crianças exercitam a imaginação, a reflexão, o desenho e a escrita. É divertido para as crianças e uma oportunidade para a Native premiar e celebrar a imaginação, a criatividade e o entusiasmo.
Ao longo destes 12 anos, as crianças têm expressado desejos, curiosidades e preocupações sobre o seu presente e o seu futuro, às quais a ciência poderia dar resposta.
Ciência como cuidado e conexão
Ao longo dos anos, as crianças têm mostrado que entendem a ciência como uma forma de cuidar dos outros e de criar novas possibilidades. Mesmo que algumas possam não ter uma noção clara da realidade do trabalho científico, parecem reconhecer na ciência um caminho para encontrar soluções e construir um futuro melhor:
“Se eu fosse cientista, fazia tudo para que a minha mãe pudesse andar.” Yanis, 10 anos, Grenoble, 2023/2024
“Se eu fosse cientista, eu faria uma receita de pizza mágica para minha avó não ficar doente.” Sofia, 8 anos, Haia, 2022/2023
“Se eu fosse cientista tentava descobrir a cura para o cancro ou faria uma esponja que lavasse a louça automaticamente.“ Lathyssa, 11 anos, Castro Daire, 2023/2024
“Se eu fosse cientista, tentava fazer com que os legumes fossem doces, para as crianças gostarem mais deles.” Francisco, 11 anos, Cambridge, 2020/2021

As crianças reconhecem também que esta ideia de ciência como cuidado vai além do seu círculo mais próximo. Para muitas, inclui a preocupação com pessoas que não conhecem, com os animais e com o próprio planeta:
"Se eu fosse cientista, procurava novas fórmulas para ajudar o mundo. Procurava medicamentos para ajudar as pessoas. Descobria formas de vida que ninguém conhece." Mattia, 9 anos, Colónia, 2024/2025
"Se eu fosse uma cientista... eu iria tentar criar uns patins super rápidos que voassem até ao espaço e também uma vacina para que não haja mais doenças." Madalena, 9 anos, Portalegre, 2022/2023
A ciência surge, assim, não só como uma forma de compreender o mundo, mas também como uma forma de cuidar dele. As preocupações ambientais, em particular, repetem-se nas respostas das crianças dos últimos anos:
“Se eu fosse cientista, criava uma máquina que transformasse o CO2 em ar puro e fresco. Esta máquina limpava o ar sujo onde há CO2. Assim, o ar ficava mais limpo e mais saudável.” Julia, 10 anos, Haia, 2021/2022
“Se eu fosse cientista, iria tentar descobrir uma fórmula para manter a biodiversidade do mundo. Porque o futuro e a vida selvagem dependem do equilíbrio que formos capazes de estabelecer entre as nossas necessidades e as necessidades dos animais” Laura, 10 anos, Haia, 2019/2020
“Se eu fosse cientista, seria zoóloga para aprender coisas sobre os animais e mostrar a sua inteligência, para que os possamos respeitar mais. Assim, deixaríamos de poluir o ambiente deles e o nosso planeta.” Josephine, 10 anos, Londres, 2018/2019
A preocupação das crianças com o abandono do ambiente leva-as até a questionar o próprio comportamento humano:
“Se eu fosse cientista, estudaria o comportamento humano, porque não percebo porque é que as pessoas continuam a deitar lixo ao mar.” Matilde, 10 anos, Machico, 2024/2025

Para além da proteção e do cuidado, algumas crianças expressam também o desejo de se ligarem e comunicarem com o mundo à sua volta:
“Se eu fosse cientista, estudava biologia marinha. Investigava os golfinhos para que um dia pudéssemos falar ou comunicar com eles. Também os protegia e estudava o ‘golfinhês’. ” Anna, 10 anos, Munique, 2016/2017
“Se eu fosse cientista, tentaria descobrir as línguas de todos os animais.” Joana, 9 anos, edição Bairros de Intervenção Prioritária, 2025/2026
Ciência como laboratórios e experiências
Enquanto forma de expressão, os desenhos e as frases das crianças revelam não só as suas experiências e preocupações, mas também as ideias pré-concebidas sobre o que é e o que faz uma pessoa cientista. Estas conceções moldam as suas representações e refletem, muitas vezes, imagens estereotipadas: homens de bata, a trabalhar sozinhos em laboratórios, a fazer experiências químicas.
Figura 3 - Desenhos vencedores do Rodrigo, 9 anos, Londres, 2013/2014, e da Matilde, 9 anos, Paris, 2018/2019
Ao mesmo tempo, os próprios desenhos das crianças mostram que estas imagens predefinidas podem ser questionadas. Por exemplo, a ciência pode ser feita por mulheres…
Figura 4 - Desenhos vencedores da Angela, 10 anos, Paris, 2014/2015; da Salma, 11 anos, Pamplona, 2024/2025; e da Mara, 8 anos, Mértola, 2021/2022, respetivamente
A ciência pode ser colaborativa…

A ciência pode envolver diferentes áreas de estudo e diferentes objetos de investigação…

Ciência como curiosidade e alegria
Se é verdade que as crianças já demonstram uma forte consciência de problemas urgentes como a doença, a poluição e a guerra, também expressam um sentimento de encanto pelo mundo e a vontade de compreender aquilo que ainda desconhecem. Para algumas, quando pensam em ciência, o que prevalece é simplesmente a curiosidade.
“Se eu fosse cientista, tentava descobrir porque é que as estrelas são redondas e não têm forma de estrela.” Charlotte, Edimburgo, 2015/2016

“Se eu fosse cientista, gostava de descobrir como é feita a internet.” Maria, 10 anos, Portalegre, 2022/2023
“Se eu fosse cientista, recriava os dinossauros: 1. Pôr o ADN do animal descendente do dinossauro ou o ADN do fóssil do dinossauro num ovo de avestruz. 2. Pô-lo num sítio quente, como se faz com um ovo de galinha! 3. Esperar… esperar… 4. Chocar…” Alessandro, 8 anos, Londres, 2020/2021
Por vezes, mais do que fazerem perguntas como “porque é que as estrelas são redondas?” ou “como funciona a internet?”, as crianças falam diretamente da curiosidade e do valor de aprender:
“Se eu fosse cientista… adoraria a minha profissão porque se aprende muito e nunca faz mal descobrir coisas novas." Martim, 10 anos, Montemor-o-Novo, 2021/2022
Também o desenho da Gabriela (Figura 8) mostra aquilo que as pessoas cientistas podem ter em comum, independentemente da área, da aparência ou dos interesses de investigação: curiosidade e uma mente aberta. No seu desenho, que descreve a “anatomia de uma pessoa cientista”, a Gabriela identificou como características essenciais uma “mente aberta a novas ideias” e “companhia com quem partilhar essas ideias”.

Por fim, há um grupo de respostas que não se foca no que as crianças fariam se fossem cientistas, mas sim em como se sentiriam a fazê-lo:
“Se eu fosse cientista, fazia experiências divertidas para ajudar as crianças a aprender. Usava batas e luvas coloridas para me fazerem feliz. Criava uma máquina do tempo e uma cura para a pior doença do mundo. Mas, acima de tudo… ia DIVERTIR-ME!” Diana, 11 anos, Jersey, 2014/2015

“Se eu fosse cientista, fazia todo o tipo de experiências, porque gosto de saber o porquê e o como das coisas à nossa volta, e é por isso que adoro ciências.” Lídia, 10 anos, Tomar, 2021/2022
No seu conjunto, estes testemunhos sugerem que as ideias das crianças sobre a ciência vão além do conhecimento científico ou das competências técnicas. Os 12 anos de Prémios Native são a prova de que as crianças imaginam a ciência como um espaço de esperança e de novas possibilidades.
Muito em breve, vamos anunciar as crianças vencedoras deste ano. Segue-nos nas redes sociais para ficares a saber quem foram.
E tu? O que farias se fosses cientista?
Sobre a Native Scientists
Fundada em 2013, a Native Scientists é uma organização pan-europeia, sem fins lucrativos, premiada internacionalmente, que cria pontes entre crianças de e cientistas de comunidades desservidas. Existe para ampliar os horizontes das crianças através de programas educativos de ciência, promovendo a literacia científica e a redução das desigualdades.






