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Uma reflexão sobre a Native Scientists e a filantropia

há 3 dias
5 min de leitura

Paulo Marques partilha a sua visão sobre os últimos cinco anos de apoio à Native.



Os esforços de uma organização são tão fortes quanto as pessoas que a apoiam, e Paulo Marques é um exemplo do que esse apoio pode ser. Esta é a história de um cientista que nunca esqueceu as suas origens e que acredita que retribuir vai muito além do dinheiro.


O Paulo tem estado ao lado da Native Scientists de muitas formas: como cientista voluntário, parceiro filantrópico e conselheiro. Desde 2020, mais de 40 anos depois de se ter sentado numa sala de aula em Valdonas, Tomar, Paulo regressa à sua escola primária todos os anos para partilhar as maravilhas da ciência com as novas gerações de crianças.


Mas o seu compromisso vai muito além daquela sala de aula, onde percebeu pela primeira vez que queria dedicar a vida à ciência. O seu apoio filantrópico já ajudou a Native a chegar a mais de 1 350 crianças.


Para celebrar estes cinco anos de parceria, conversámos sobre o que o levou a juntar-se à Native Scientists. Falámos também sobre a importância do apoio filantrópico no mundo das organizações sem fins lucrativos e das causas solidárias.



Porque escolheu, e continua a escolher, apoiar a Native Scientists?

Acredito que a ciência é uma das maiores conquistas da humanidade. Permite-nos compreender o mundo de forma racional, explorar as razões pelas quais as coisas são como são e promover mudanças positivas. A principal missão da Native é garantir que nenhuma criança cresça sem ter conhecido uma pessoa cientista ou feito uma experiência científica, e isso diz-me imenso. Acredito que dar a todas as crianças a oportunidade de experienciar as maravilhas da ciência pode ser transformador para a nossa sociedade. O mesmo vale para as ajudar a vê-la como uma forma de fazer a diferença.

Também já participou como cientista voluntário. O que o faz voltar todas as vezes?

Cresci numa aldeia algo pobre do centro de Portugal. Nos anos 80, tendo em conta o contexto geral do país, era quase impensável que alguém pudesse vir a ser cientista ou ter um impacto à escala mundial. Hoje, tento mostrar às crianças que tudo é possível e que a ciência pode ser uma porta para se tornarem agentes de mudança. É uma experiência incrível interagir com elas e ver os seus olhos arregalados quando fazem experiências ou quando falamos sobre o espaço e a sua exploração, por exemplo. O carinho que recebo delas e de toda a experiência é imenso.

Que atividades tem dinamizado nas suas oficinas?

Uma das fases da minha carreira de que mais gostei foi o tempo em que trabalhei na Agência Espacial Europeia. Acho que o espaço cativa sempre a imaginação de crianças e de pessoas adultas. Por isso, a maioria das atividades que tenho promovido está relacionada com o espaço. Pus as crianças a construir robôs inspirados nos rovers que exploram Marte. Explorámos a natureza da luz com circuitos eletrónicos que lhes permitem misturar e separar cores e perceber como sabemos de que são feitas as estrelas. Mas a atividade que mais as entusiasmou foi descobrir como funcionam as lentes: pelo caminho, construíram os seus próprios telescópios para levar para casa. Na minha escola, faço a mesma oficina para todas as crianças, do 1.º ao 4.º ano. Aliás, junto as crianças do 1.º ano com as do 4.º e as do 2.º com as do 3.º. Assim, estas crianças veem-me todos os anos, desde que entram no 1.º ano até terminarem o 4.º. Quero que tenham uma experiência única de cada vez, sempre com diferentes áreas da ciência. E, para isso, mudo as atividades todos os anos!

Qual tem sido a parte mais gratificante de fazer parte da Native Scientists?

Há duas coisas que têm sido especialmente gratificantes: ajudar a Native Scientists a chegar a tantas crianças e levar a ciência e a minha própria história de volta à minha escola primária. Fico extremamente feliz por ajudar a levar a ciência a tantas crianças e por influenciar as suas vidas de forma positiva. Dá sentido à minha vida.

Em que é que a Native mudou desde que começou a colaborar?

A Native Scientists tornou-se muito mais organizada e profissional desde que me envolvi. À medida que o número de crianças, escolas e cientistas cresceu, a organização teve de evoluir. Deixou de ser uma iniciativa movida sobretudo por voluntariado e passou a ser uma organização madura, capaz de operar a uma escala muito maior. Hoje, chega a mais de 6 500 crianças e 200 escolas, com o apoio de uma equipa dedicada e de centenas de pessoas voluntárias. O que mais valorizo é que, apesar deste crescimento, continua unida em torno da mesma missão: levar a ciência e as pessoas cientistas às escolas do 1.º ciclo.

Onde vê a Native Scientists daqui a cinco anos e quais são as suas esperanças para o futuro?

Tenho um desejo principal: que a Native Scientists continue a cumprir a sua missão de garantir que nenhuma criança termine o 1.º ciclo sem ter conhecido uma pessoa cientista ou feito uma experiência científica. Espero que possa chegar a muitas mais crianças e escolas nos próximos cinco anos, preservando as interações pessoais que tornam o seu trabalho tão marcante. E talvez, um dia, algumas das crianças que hoje participam regressem às suas escolas como cientistas e inspirem a próxima geração.

O que diria a outras pessoas que estejam a ponderar apoiar a Native Scientists?

A filantropia não se resume a doar dinheiro. Trata-se de retribuir à sociedade com o nosso tempo, as nossas competências e os nossos recursos. Voltar à minha escola primária é provavelmente uma das coisas com mais impacto que faço no âmbito da Native Scientists. Se partilham a visão de que a ciência e a tecnologia são ferramentas transformadoras, não há melhor forma de gerar impacto do que começar pelas crianças mais novas. O objetivo central da Native está alinhado com esta visão. Ao colaborar com a Native Scientists, podem ajudar a fazer uma diferença significativa.

A filantropia é importante para projetos como a Native Scientists?

Uma pessoa filantropa é alguém que procura melhorar o bem-estar das outras pessoas e da sociedade, contribuindo com o seu tempo, dinheiro ou recursos. Acho que temos a responsabilidade de retribuir e de ajudar quem nos rodeia, seja com tempo, competências ou financiamento. Por isso, mesmo que outras fontes de financiamento apoiassem totalmente o programa, as pessoas filantropas continuariam a ser essenciais. Quanto mais contribuirmos, melhor será o mundo, sobretudo para quem vem de contextos desservidos.

A história e as palavras do Paulo mostram-nos que o apoio pode assumir muitas formas. Nos últimos cinco anos, deu o seu tempo, as suas competências e os seus recursos, com a forte convicção de que todas as crianças merecem sentir que a ciência é para elas. Agradecemos profundamente o seu apoio e esperamos continuar esta parceria por muitos mais anos. Se a história do Paulo foi inspiradora, teremos todo o gosto em falar consigo. Só em conjunto podemos tornar a ciência uma possibilidade para as crianças.




A entrevista original foi editada por questões de extensão e clareza.




Sobre Paulo Marques

Paulo Marques é diretor científico do programa CMU Portugal e investe em várias empresas tecnológicas em fase inicial. É também cofundador e Technical Fellow da Feedzai, uma plataforma de prevenção de crimes financeiros baseada em inteligência artificial que ajuda bancos, instituições financeiras e estabelecimentos comerciais a detetar e bloquear fraudes em tempo real. Além disso, é um dos parceiros fundadores da TUMO Portugal, um programa educativo extracurricular e gratuito, focado em tecnologias criativas e competências digitais, para jovens dos 12 aos 18 anos.

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